Sobre a LojaSorria sempre: a primeira lição que a fundadora deixou
Por Tiemi — consultora de enxoval · 4 min de leitura
Neste post
Existem frases que uma família repete tantas vezes que elas deixam de ser conselho e viram jeito de trabalhar. Na nossa, essa frase é curta: sorria sempre. Foi a primeira lição da Dona Maria Sakata, e ela é dita até hoje, décadas depois, por gente que nunca a conheceu pessoalmente.
De onde ela veio
Dona Maria vendia em feiras, com a mercadoria estendida sobre um lençol no chão. Nesse tipo de trabalho, não existe vitrine, não existe marca e não existe nada que segure a atenção de quem passa — a não ser você. O sorriso não era estratégia comercial, era a única ferramenta disponível. E funcionou por tempo suficiente para virar a base de tudo o que veio depois.
O que ela não significa
Vale começar pelo que ela não é. Sorria sempre não é obrigar ninguém a fingir bem-estar, não é o sorriso ensaiado de quem foi treinado para vender, e não é ignorar o que a pessoa está sentindo. Uma gestante que chega ansiosa, cansada ou preocupada não precisa de alguém sorrindo por cima da preocupação dela. Precisa de alguém que a receba bem.
O que ela significa na prática
Significa que quem entra aqui vai ser recebido, olhado nos olhos e cumprimentado, mesmo que esteja só olhando. Significa que a resposta a uma pergunta boba é a mesma que a resposta a uma pergunta complexa. E significa que o dia difícil de quem está atendendo não vira problema de quem está sendo atendido. Isso é o mínimo, e ainda assim é raro.
Por que isso importa numa loja de enxoval
Uma mulher grávida que entra para montar enxoval não está fazendo uma compra qualquer. Muitas chegam inseguras, com listas enormes baixadas da internet, com medo de errar e com opiniões conflitantes de meia dúzia de pessoas na cabeça. Se a primeira coisa que ela encontra é pressa e cara fechada, ela não vai perguntar o que realmente queria perguntar. E aí a gente não consegue ajudar.
O sorriso abre a conversa
É bem prático: quando a pessoa se sente à vontade, ela conta a situação real. Diz que o orçamento está curto, que a sogra já comprou dez bodies do mesmo tamanho, que ela não sabe se vai conseguir amamentar, que está com medo do parto. Nada disso aparece se o clima for de balcão de repartição. E é justamente essa informação que permite montar um enxoval que serve.
Vale para quem não compra
A gente atende do mesmo jeito quem chega dizendo que está só olhando, quem está no terceiro mês e ainda não vai comprar nada, e quem entrou para perguntar um endereço. Isso não é generosidade nem estratégia sofisticada. É a lição funcionando: a pessoa que foi bem recebida hoje é a mesma que volta daqui a quatro meses, ou que indica a loja para a irmã.
O que fazemos quando o dia está ruim
Somos gente, e dia ruim existe. O que a lição cobra não é estar sempre feliz, é não descarregar isso em quem chegou. Na prática, isso significa revezar, respirar, tomar um café e voltar. Uma loja pequena, de família, tem essa vantagem: dá para pedir ajuda ao lado e ninguém acha estranho.
Passando adiante
Toda pessoa que entra para trabalhar conosco ouve essa frase nos primeiros dias. Não como regra do manual, mas como história — a história da bisavó, do lençol, da feira. Quando o valor vem acompanhado da história, ele gruda de um jeito que nenhum treinamento de atendimento consegue reproduzir.
O teste que a gente usa
Existe um jeito simples de saber se estamos cumprindo: a pessoa saiu daqui mais leve do que entrou? Se ela chegou tensa com a lista de enxoval e saiu com a sensação de que dá conta, a gente fez o trabalho. Se ela saiu com sacola cheia mas do mesmo jeito ansiosa, alguma coisa não funcionou.
Uma lição que atravessou quatro décadas
Dona Maria não deixou um plano de negócios. Deixou uma frase de duas palavras, dita numa feira, sobre um lençol no chão. Passou por três gerações, atravessou uma mudança completa de mercado, sobreviveu à chegada da internet e continua sendo a primeira coisa que a gente ensina. Poucas estratégias empresariais duram tanto.
Sobre quem escreve
Consultora de enxoval da Loja Tiemi, em Sorocaba. Desde 1984 a loja ajuda famílias a montar o enxoval do bebê — já foram mais de 15 mil enxovais montados.
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