DesenvolvimentoObjeto de transição: o paninho, o bichinho e o apego
Por Tiemi — consultora de enxoval · 4 min de leitura
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Em algum momento entre os seis meses e os dois anos, muitas crianças elegem um objeto. Pode ser um paninho, uma fraldinha de boca, um bichinho de pelúcia, uma manta ou até uma peça de roupa. A partir daí, aquele item passa a ter um estatuto especial: acompanha o sono, viaja junto, é procurado em momentos de estresse e sua ausência gera desespero. Esse é o objeto de transição, e ele tem uma função psicológica bastante conhecida.
O conceito de objeto transicional
O conceito foi descrito pelo pediatra e psicanalista Donald Winnicott, que observou que esses objetos ocupam um espaço intermediário entre o mundo interno da criança e a realidade externa. Eles representam a presença tranquilizadora do cuidador em um momento em que a criança começa a perceber que ela e a mãe são pessoas separadas. Segurar o paninho é uma forma de acessar a sensação de conforto e segurança quando o adulto não está fisicamente ali, o que é uma habilidade emocional importante.
Por que o apego se intensifica em separações
Por isso, o apego a esses objetos costuma se intensificar justamente nas fases de separação: início do sono, ida para a creche, viagens, chegada de um irmão, mudança de casa. Ele é um recurso de autorregulação, e não um sinal de insegurança ou de dependência excessiva. Ao contrário, ele costuma indicar que a criança está construindo formas próprias de lidar com a ausência.
Nem toda criança elege um objeto
Vale dizer também que nem toda criança desenvolve esse tipo de apego, e isso é igualmente normal. Algumas se acalmam com música, com um ritual específico, com o contato físico ou simplesmente não elegem nenhum objeto. Não há nada a corrigir em nenhum dos dois casos.
Cuidados de segurança no berço
Do ponto de vista prático, existem cuidados de segurança que precisam ser respeitados. Nos primeiros meses, e enquanto o bebê ainda não senta e se movimenta com autonomia, objetos macios não devem permanecer no berço durante o sono. As orientações de sono seguro são claras quanto a manter o berço livre de travesseiros, almofadas, protetores, bichos de pelúcia e panos soltos, porque eles representam risco de sufocamento. Geralmente, a partir de aproximadamente doze meses, com o bebê já rolando, sentando e com bom controle de cabeça e tronco, esse risco diminui e um objeto pequeno e leve costuma ser considerado aceitável, mas vale confirmar essa orientação com o pediatra.
Peças pequenas e apliques
Se o objeto tiver olhos de plástico, botões, laços, fitas, apliques costurados ou partes que possam se soltar, o cuidado precisa ser maior, porque essas peças representam risco de engasgo. Peças pequenas devem ser removidas ou reforçadas, e o item deve ser inspecionado regularmente. Prefira objetos de tecido simples, sem enchimento excessivo e sem cordões.
Tenha duplicatas
Um conselho prático que qualquer família experiente repete: tenha duplicatas. Assim que perceber que a criança elegeu um objeto, compre dois ou três idênticos, se possível, e faça um rodízio entre eles. Isso resolve dois problemas de uma vez. Primeiro, permite lavar sem crise, porque o item vai ficar sujo com frequência. Segundo, evita a catástrofe de perder o único exemplar em uma viagem, em um restaurante ou na rua. Um rodízio desde o início também impede que uma das peças fique visivelmente mais gasta que a outra, o que a criança costuma perceber.
Como lavar sem crise
Sobre lavar, vale ir aos poucos. Muitas crianças reconhecem o cheiro do objeto e reagem mal à peça recém-lavada. Lavar com sabão neutro, sem amaciante perfumado, e alternar entre as duplicatas reduz esse estranhamento. Alguns pais preferem lavar durante o dia e devolver antes da noite, mantendo a previsibilidade do ritual de sono.
Quando deixar o objeto
Quanto ao momento de deixar o objeto, não há pressa. A maioria das crianças abandona espontaneamente o apego ao longo dos anos pré-escolares, conforme desenvolve outros recursos de regulação. Forçar a retirada costuma gerar mais sofrimento do que benefício. O que se pode fazer, quando a criança já é maior, é combinar limites de uso, como manter o objeto em casa ou apenas no quarto, de forma gradual e negociada.
Ferramenta, não vício
Em resumo: o paninho não é vício, é ferramenta. Ele ajuda a criança a atravessar separações e a se acalmar sozinha. Cuide da segurança, tenha uma reserva, respeite o tempo dela e guarde o exemplar aposentado. Anos depois, ele costuma ser um dos objetos mais carregados de memória da casa inteira.
Sobre quem escreve
Consultora de enxoval da Loja Tiemi, em Sorocaba. Desde 1984 a loja ajuda famílias a montar o enxoval do bebê — já foram mais de 15 mil enxovais montados.
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